NOTA: A quem consulte e aprecie este blogue e possa contribuir com comentários, críticas ou correcções têm a minha consideração.
Aqueles que por seu entendimento, possam ser proprietários de alguns elementos fotográficos, e pretendam a retirada dessa foto, agradeço que me seja comunicada para evitar constrangimentos pessoais.

Obrigado.

19 de janeiro de 2020

Quinta da Corga II - Águas Santas


Rua da Corga (foto antiga) - Águas Santas, Maia

Esta segunda foto foi retirada da Revista da Maia, Nova Série, Ano 2 - nº. 2 de julho/dezembro de 2017, que a autarquia reeditou e contém em PDF no seu site.
Nessa mesma revista refere a uma segunda pedra de armas existente na mesma quinta que se sobrepujava sobre o portal de entrada da quinta, mas que actualmente ou foi substituída ou adulterada.
Vista da entrada principal - Rua da Corga- Águas Santas, Maia


Da revista extrai-se o seguinte texto:

Brasão da Quinta da Corga - II
"Talhado em granito local, encontra-se embutido na fachada principal do edifício anteriormente referido (no interior, ao fundo de amplo quinteiro, ergue-se o edifício de habitação, antigo, mas reconstruído ou ampliado no século XVIII, de que são características a ala alpendrada do lado sul, com escada). Escudo de contorno algo sui generis. Campo dividido em quatro partes por uma nervura que se salienta ligeiramente, percorrendo-o horizontal e verticalmente para se intersectar no centro, em ângulo recto. cada uma dessas partes (quartéis) é rebaixada a partir da nervura vertical, deixando emergir as formas algo grosseiras de duas flores-de-lis e de dois leões em posição pouco definida. Assente num ornato que sugere uma tarja, o escudo é encimado por uma coroa aberta, indefinida nos seus remates, do interior da qual parece sair umgorjal que cobre o bordo superior do escudo, este ladeado de elementos de sinuoso, sugerindo o paquife que não chega a ser.
A leitura heráldica poderá ser esta: Esquartelado, o primeiro e quarto de (?), uma flor-de-lis de (?) virada à destra; o segundo e o terceiro de (?9, um leão de (?). Coronel de nobreza.
Como em outros casos, não é possivel, por agora, ir-se mais além. Tarta-se de armas compostas, com certeza, podendo um dos ramos relacionar-se com as dos Barbosa."

7 de janeiro de 2020

Gungunhana, o rei de Gaza


Gungunhana – Rei de Gaza

Foto de Gungunhana, Rei de Gaza

Foto de Gungunhana, no inicio do seu reinado



Introdução:
Em pleno séc. XXI já só a população de meia-idade, com mais de 50 anos, se lembra desta figura que era referida nos livros de história e que se aprendia nas nossas escolas primárias.
Claro que após o 25 de Abril, este conteúdo histórico teria de ser retirado por se entender ser nefasto, pouco ético e social a abordagem deste assunto pelos motivos da opressão e do colonialismo exercidos por parte de Portugal.
Também é verdade que nos relatos da nossa história, em quase 900 anos, nem tudo foram glórias, alegrias, grandezas, actos heróicos, como foram sempre abordados nos nossos livros escolares.
Em tudo na vida deveremos contextualizar no tempo as acções e decisões tomadas por todos aqueles que se manifestaram, que governaram e tiveram acções de maior ou menor relevo na sua decisão, desde o período em que Portugal se tornou numa nação.
Ora, Gungunhana era uma figura de grande impacto em África, pela extensão do seu reino e pelo poderio da sua etnia. Essa área de ocupação estava compreendida numa grande parte integrante de Moçambique e que nessa época era relevante para a ocupação de Portugal, pelos seus interesses económicos e pela área geo-referencial perante o mundo.
A Alemanha e Inglaterra eram também países intervenientes e preponderantes no domínio da faixa sul do continente africano e não lhes era alheia a aceitação da ingerência de Portugal neste espaço do mundo, onde à época o foco pela busca de riqueza, através das explorações mineiras, linha férrea e da escravatura, perante a imagem mundial pela sua ocupação e domínio eram assuntos de importância mundial.

Quem foi:
Gungunhana foi o último monarca da dinastia Jamine, cognominado o “Leão de Gaza”, e o seu reinado estendeu-se desde o ano de 1884 até 29 de dezembro de 1895, dia que foi feito prisioneiro por Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, na aldeia fortificada de Chaimite.
Foto de Gungunhana, em 1891


Com o nome original de Ngungunhane, mais correctamente Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo ou Reinaldo Frederico Gungunhana.
Terá nascido em Gaza, Moçambique, no ano de 1859 e faleceu a 23 de dezembro de 1906, na Ilha Terceira, em Angra do Heroísmo após condenação ao exílio, como desterro, nesta ilha dos Açores.
Subiu ao trono em 1884 ao qual viria a ser cognominado o Leão de Gaza, e nasceu em território, que seu pai dominava, entre os rios Zambeze e Incomati, mais provavelmente nas margens do rio Limpopo, região onde o centro de poder “angune” então se localizava.
Era filho de Muzila ou Mzila (f-1885), rei de Gaza entre 1861 e 1884, e de Yosio. Por sua vez era neto de Manicusse (antes chamado de Soshangane), fundador e imperador de Gaza (f-1858) que vindo do sul, da Zululândia, tinha fundado o Império de Gaza.

Origem do Império de Gaza:
Gungunhana nasceu numa sociedade complexa e num período de grande instabilidade social e politica.
Seu avô era rei de um povo de língua “nguni”, depois denominada pelos portugueses de “angune” ou “vátua” e líder incontestado de um poderoso exército que ao longo de décadas migrara para o norte desde a Zululândia, submetendo ao longo da década de 1820 cerca de duas centenas de tribos, cujos chefes passaram a ser seus régulos vassalos.
Após terem partido das suas terras ancestrais, actual África do Sul, os guerreiros angunes moveram-se incessantemente pelos territórios entre os rios Maputo e Zambeze, esmagando os povos autóctones fundando um império a que deram o nome de Gaza e que na fase inicial ocupava cerca de 56.000 Km2 tendo atingido aproximadamente os 90.000 Km2.
Actualmente a região de Gaza contempla uma área ligeiramente menor de 75.709 Km2 reajustada pela administração portuguesa.

 Distrito de Gaza, Moçambique

Ao longo dos vinte anos de percurso, o centro do poder angune estabeleceu-se em torno do vale do Limpopo onde fundou a aldeia de Chaimite e aí fixou a sua capital.
Com a chegada dos angunes e as convulsões então provocadas em todo esse percurso os povos locais e os comerciantes portugueses estabelecidos ao longo da costa moçambicana foram rudemente massacrados e a submissão forçada a um novo poder, tendo criado um clima de insegurança e medo que permaneceria durante décadas.
Em agosto de 1840, Portugal enviou uma embaixada à corte de Manicusse, chefiada pelo alferes Caetano dos Santos Pinto tendo recebido as instruções de estabelecer um tratado de amizade, havendo entre as partes trocas de oferendas.
Perante tal proposta o rei Manicusse declarou que no momento não via qualquer vantagem no referido tratado com o rei de Portugal, conforme foi expresso no relatório de 18 de novembro desse ano, apresentado e registado pelo escrivão da Fazenda Nacional em Inhambane.
Contudo os ataques continuariam mantendo-se o clima de instabilidade na região perante os portugueses estabilizados no país.
Com a morte de seu avô Manicusse, em 1858, a disputa pelo trono foi travada entre seu pai Muzila e seu tio Mawewe, tendo este saído vitorioso e que logo de imediato terá atacado todos os seus irmãos de modo a ganhar poder.
Apenas o pai de Gungunhana conseguiu fugir para o Transval, onde organizou um exército para atacar seu irmão e que provavelmente o terá levado em tenra idade.
Durante estes anos e até 2 de novembro de 1861, seu tio demonstrava prepotência e uma maior agressividade que seu antecessor criando um sentimento de ameaça às populações coloniais e locais e especialmente aos portugueses.
Um dos exemplos de exigências foi a imposição de pagamento de tributo na colónia de Lourenço Marques, quer em fornecimento de calçado quer em dupla tributação para as mulheres grávidas, implicando uma ameaça de guerra de extermínio contra os interesses portugueses na região.
O Governador da praça de Lourenço Marques, Onofre Lourenço de Paiva de Andrade, terá respondido com o envio de um cartucho dizendo que seria aquela a forma de pagamento do tributo provocando uma declaração de guerra.
Nessa data chegaram a Lourenço Marques enviados de seu pai, Muzila, informando a aceitação do apoio português na contenda a troco de vassalagem, assumindo-se a partir daí como rei.
A batalha deu-se em finais de novembro de 1861 numa linha de quatro léguas entre as praias da Matola e as terras de Moamba e que apesar de ter menos homens saiu vitorioso. Dia 30, após esta vitória, apresenta-se no presídio de Lourenço Marques, sendo amigavelmente recebido pelo governador.
A 1 de dezembro foi celebrado o tratado em que Muzila se declarava súbdito português e elaborada uma acta que depois de aprovada pelo governo português, acabaria publicada e incluída no nº. 4 da publicação Termos de Vassalagem (1858-1889).
A 16 de dezembro travou-se uma decisiva batalha permitindo a consolidação da nova aliança em troca de armamento, apoio regional e lideres locais, que preferiam submeter-se à suserania do rei de Portugal em vez da hegemonia local do predecessor, Mawewe.
Esta guerra continuaria até 1864, tendo sido deslocalizada a capital do reino do vale do Limpopo para Mossurize, a norte do rio Save, correspondendo a actual província de Manica.
Seu pai, Muzila, foi dominando progressivamente os angune e os povos vassalos e a partir dessa data tornou-se rei incontestado do Império de Gaza, passando Gungunhana a ser um dos príncipes em ascensão e potencial sucessor de seu pai, iniciando o seu caminho para o poder.

Ascensão e queda:
Foi nesta região do vale do Limpopo dos anos 50, no enquadramento social e politico, que nasceu Mundagaz, ou popularmente conhecido com o nome de Gungunhana, de sangue real e um dos candidatos a herança do trono.
Educado para a vida de guerreiro e tendo acompanhado seu pai e avô, desde tenra idade, nas grandes caminhadas que empreendiam todos os anos através da região dos seus vastos domínios.
Toda a sua formação foi direccionada para a luta e poder, aprendendo as tácticas de guerra e negociações desde criança ainda no reinado de seu avô, Manicusse.
Com 34 anos de idade iniciou a sua governação, ano de 1884, herdando uma área territorial extensa e uma população com mais de meio milhão de habitantes.
Gungunhana em Manjacaze, em 1895

Fixou a sua corte em Manjacaze tornando-a capital de Gaza, onde iniciou a sua governação num período critico para o continente africano.
Coincidia com a Conferência de Berlim (15 de novembro de 1884 - 26 de fevereiro de 1885), também conhecida por Conferência da África Ocidental ou do Congo, consistindo na colaboração europeia pela partição e divisão territorial daquele continente.
Logo em janeiro de 1885 tomou a iniciativa, fundamentalmente com os portugueses e com a Europa, como prioridade governativa. Contacta as autoridades portuguesas em Chiloane, enviando um presente e a anunciação da sucessão do reino. Este gesto foi visto como uma oportunidade para reforçar a presença portuguesa juntos com as comunidades locais do seu reino e especialmente com os augunes ou vátua, como também eram designados.
As convulsões territoriais a partir daí acentuaram-se perante a cobiça por parte da Grâ- Bretanha e da Alemanha tendo o governo português agindo rapidamente de modo a garantir a área dominante face à provável perda de território, tendo assinado um tratado, no ano de 1886, com o chanceler alemão, o tratado da delimitação das colónias dos dois países. posteriormente anexado ao documento, em 1887, o mapa "cor de rosa", onde Angola e Moçambique se uniam territorialmente, passando toda a área para a soberania portuguesa, e onde nela fazia parte o Império de Gaza.
Mapa "Cor de Rosa"

Face à crescente presença britânica no território e em particular a passagem pela região por um comando britânico com 5000 soldados, o governo português decide aproveitar as boas relações com o novo régulo, Gungunhana, e nomear um residente português junto a sua corte que servisse de oficial e de ligação como embaixador e conselheiro politico.
A escolha recaiu por um aventureiro da região com larga experiência, onde tinha já sido militar, comerciante e funcionário público, de nome José Casaleiro Alegria, que gerou controvérsia, invejas e descontentamentos e que viria a ter larga influência nos acontecimentos subsequentes.
Esta nomeação em 1885 foi muito bem recebida na corte de Gungunhana, ganhando rapidamente a confiança deste e dos principais lideres políticos.
Rapidamente é entendido por parte do governo português em assinar um novo tratado em substituição do de 1861, com seu pai, que se encontrava manifestamente desactualizado e esquecido.
Para tal, Gungunhana decidiu enviar uma embaixada a Lisboa nomeando Casaleiro Alegria com plenos poderes perante Portugal.
Conjuntamente com ele partiram outros dois representantes, nobres de outras etnias, e que as suas crenças e tabus lhes permitiam atravessar o mar, pois tal acto para os augunes tal seria impossível e irrealizável por lhes ser tabu.
Para Portugal estas diligências transformaram-se em desconfianças tendo levantado suspeitas e intrigas, sendo a embaixada considerada por muitos como uma impostura. Mesmo assim, foi recebida pelo Ministério da Marinha e Ultramar a 12 de outubro, sendo nessa altura assinado um tratado de amizade e vassalagem entre os reis de Portugal e de Gaza, publicado em Boletim Oficial da Província de Moçambique de 9 de janeiro de 1886. Este documento oficializava a presença do residente português e permitia a livre circulação de portugueses em Gaza, ao mesmo tempo que concedia a honra de coronel de segunda linha do exercito português e direito a respectiva farda, a Gungunhana.
Todo este processo culminou num outro acordo quer pelas desconfianças criadas, quer por dificuldades da aplicação do tratado, quer pela autenticidade dos poderes de Casaleiro, surgiu uma nova versão, menos ambiciosa nos propósitos contribuindo para um maior descrédito de todo o processo.
Em 1887, e perdida esta oportunidade, nova embaixada é preparada sendo então enviados dois emissários augunes, N'Tonga da casa de Manjacaze e Udaca da casa de Udengo, sendo desta vez recebidos pelo rei de Portugal, e que aproveitando a sua estadia neste país lhes fizera a apresentação dos arsenais e quartéis com o objectivo de demonstração do poder de Portugal.
Foi igualmente incluída uma visita a um circo mostrando um homem branco a domar um leão, considerando esta proeza de incrível magia e poder aos olhos dos enviados.
Esta visita a Lisboa e as noticias da anexação da Zululânida à colónia natal, a 14 de maio de 1887, levam um período de melhorias nas relações com os portugueses, sendo rapidamente fragilizada pelas decisões tomadas na Conferência de Berlim ao qual a posição portuguesa começa a endurecer, ganhando contornos de gestos imperialistas.
Face ao crescente numero de estrangeiros e de exigências nas suas terras, Gungunhana sente-se ameaçado, quer pelas forças portuguesas quer pelas britânicas e pela aparente ameaça de discórdia interna e face à existência de pretendentes ao trono no exílio, este decide mudar a sua capital de Mossurize para Cambane, cerca de 600 Km a sul, num movimento que desencadearia novas resistências e novas guerras, pois este novo território se posicionaria próximos de povos considerados inimigos.
Esta mudança serviu para um aproveitamento politico tendo em conta as rivalidades existentes entre as potências europeias e defender a independência em relação aos portugueses, aliviando as pretensões sobre as minas de Manica e consolidando a soberania ngungi.
Foto Jornal Ilustrado, nº. 15, de 1/11/1933 - Reconstituição de Kraal (cidade típica Vátua) de Manguanhana, 
na Lagoa de Suli, próximo do Limpopo, construída em 1892 e incendiada em 1895.

Por esta altura Gungunhana tenta apoios dos ingleses e de Cecil Rhodes, inglês e homem de negócios e envolvido na linha de comboio a projectar e que ligaria o Cabo (África do Sul) ao Cairo (Egipto) e que nunca viria a ser concretizado.
Neste período a complexa teia de compromissos seriam permanentemente quebrados e reassumidos, em que ataques aos interesses dos portugueses que logo se seguiam com embaixadas de desculpas e amizades, e os ataques constantes contra povos que se tinham colocado sob a protecção portuguesa não paravam.
Até que surge a 11 de janeiro de 1890 o "ultimato britânico" exigindo a retirada das forças portuguesas na região do rio Chire (Niassalândia) e das terras dos macololos e dos machonas (actual Zimbabwe), razão para a concretização da linha férrea e de outros objectivos por parte de Londres, ameaçando Lisboa com bloqueio naval e acção armada.
De imediato, no próprio dia do ultimato, o rei D. Carlos I apressa-se a comunicar a rainha Vitória de que cederia às exigências apresentadas.
Contudo esta decisão de fraqueza gera uma onda nacionalista e de repudio motivando a administração colonial portuguesa em mudar de posição, acabando os acordos e cooperação e passar a agir e a falar em submissão e vassalagem, no sentido da pacificação, mesmo que implicasse a intervenção armada e o derrube de régulos menos cooperantes.
Foto de Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque

Em 1891, com a chegada de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, ao posto de governador de Lourenço Marques, um monárquico e nacionalista de linha dura, ganha nova acutilância nos dois anos de governação com um endurecimento nas relações com os povos africanos circundantes, acabando com a condescendência que se caracterizava então a presença portuguesa nas décadas anteriores.
Foto de Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque em ambiente colonial

Entretanto os jogos económicos e políticos por parte dos ingleses e fundamentalmente por parte de Cecil Rhodes, da British South Africa Company elegem a região de Gaza e o porto de Lourenço Marques como objectivos estratégicos para o escoamento das matérias-primas do Transvaal (nordeste de África do Sul), bem como de outras grandes concessionárias que usufruem do poder quase absoluto nos imensos territórios que exploram, a Companhia do Niassa, a Companhia da Zambézia e Companhia de Moçambique.
A força aparente exercida por Mouzinho de Albuquerque resumia-se a uma estreita faixa do litoral e de alguns pontos isolados no interior.
Todas estas frentes procuram atrair de diversas formas Gungunhana para os seus interesses. Por Portugal instala-se um intendente-geral na corte conforme acordo de outubro de 1885, outros apresentam ofertas e Cecil Rhodes obtém de Gungunhana, a troco de um milhar de espingardas, munições e de um subsidio anual em dinheiro, a concessão da exploração de minérios e o acesso ao mar.
Emissários enviados por Gungunhana a Londres, em 1891

Em função destes actos Gungunhana é surpreendido pela rapidez dos acontecimentos e pela radical alteração do comportamento português.
Decide então jogar no conflito entre Londres e Lisboa, mas fica sem resposta o seu pedido de protecção à rainha Vitória, do Reino Unido. Sem que ele soubesse, ambos os governos tinham chegado a acordo na delimitação dos territórios africanos, rubricando em junho de 1891 um entendimento onde Gaza fica, sem margem para dúvidas, integrado no território moçambicano.
O imperador é intimado a assumir-se como súbdito de Portugal, caindo a esperança de qualquer reacção britânica.
A partir daí, desde 1894 foram desencadeadas várias campanhas pelo exercito português para a captura de Gungunhana, tendo como confrontos mais relevantes, em 2 de fevereiro em 1895, na Batalha de Marracuena, em 7 de novembro, da Batalha de Coolela, a 11 de novembro com a destruição de Mandlhacaze, capital do Império, e a 28 de dezembro com a captura do rei, na aldeia fortificada de Chaimite antiga capital do reino.
Postal Ilustrado de quadro a óleo do aprisionamento de Gungunhana

Painel figurativo do aprisionamento de Gungunhana

Desenho de fuzilamento de súbditos de Gungunhana

Peça representativa do aprisionamento de Gungunhana

O desterro:

Com a sua captura e tendo em conta o seu reconhecimento pela imprensa europeia, a administração colonial portuguesa decidiu condená-lo ao exílio em vez de o mandar fuzilar, como fizera com outros.
Foi então decidido que viria para Lisboa, acompanhado pelo filho de nome Godide, suas mulheres e outros dignitários. Após uma breve permanência naquela cidade, seria desterrado para os Açores até ao fim da sua vida.
Foto de Gungunhana com as suas 7 esposas 

Foto de Gungunhana com as suas 7 esposas (após captura)

No dia 13 de janeiro, Gungunhana e 31 prisioneiros, incluindo as 7 esposas por ele escolhidas, foram obrigados a embarcar no barco a vapor "África" rumo Lisboa.
Mais que o exílio, o mar eram temidos por estes africanos de raça aungunes, pois eles não comem peixe e diabolizam a travessia do mar.
Postal de Gungunhana e uma das suas mulheres (a preferida)

De acordo com descrição de um jornal, relata que foram amontoados numa camarata em condições abjectas. Na paragem por Luanda, adquiriram-se roupas para os vestir ao estilo europeu.
Em Cabo Verde foram deixados outros prisioneiros de menor importância também em desterro.
Dois meses depois da partida chegaram a Lisboa, além do rei e seu filho, Godide, o único que já falava português, vinham com eles Molungo, seu tio e velho conselheiro, Matibejana, conhecido por Zixaxa, um régulo que atacara Lourenço Marques e tinha sido traído por Gungunhana, para além das 7 mulheres de Gungunhana e 3 por parte de Zixaxa, e acompanhando-os, Gó, um cozinheiro.
"Na metrópole,  reinava a euforia. Uma multidão apinhou-se no cais à chegada do imperador que a imprensa pintava como um monstro. O Diário de Noticias imprimiu no dia seguinte: Quando entramos nos alojamentos estavam todos os pretos deitados e o Gungunhana, que ocupava uma extremidade da tarimba, tinha o rosto coberto. Alguém lhe descobriu a cara e o preto despertou, olhando para todos com olhos desconfiados. Pouco depois foi ordenado que subisse a pretalhada para a tolda, onde se faria a sua exibição.
Aterrado com o medo da morte, Gungunhana chorava, tremia e oferecia o gado, o marfim e os escravos que já não tinha a troco de um encontro com o rei. Vou morrer? Para que lhes sirvo eu? Deixem-me regressas que morro se não vejo as minhas terras." gritava, segundo a tradução do interprete.
Seu filho, Godide, exibia uma postura diferente, distribuindo mesmo alguns autógrafos aos curiosos.
O cortejo com seis carruagens abertas levou-os até ao Forte de Monsanto, onde ficariam um pouco mais de 3 meses. A animosidade e as ameaças da população foram de tal ordem que no dia seguinte alguns jornais criticaram a passividade da polícia. Os gestos mais repetidos eram o de estrangulamento e de degolação."
A curiosidade acerca dos africanos manteve-se nos meses seguintes e Carlos Enes, no seu Álbum Angrense escreve ainda, que “… o Régulo e os seus almoçavam habitualmente às 7h e jantavam às 16h. O serviço de louça e talheres é como de qualquer europeu; preferem carne, arroz, vinho e aguardente e não comem peixe de qualquer qualidade.” E ainda: “Na camarata onde dormiam, as sete camas dispunham-se da seguinte forma: em duas delas, juntas, ficava Gungunhana entre suas duas favoritas; as outras cinco camas ficavam mais afastadas. (…) A favorita é que limpava a coroa de cera que Gungunhana tinha na cabeça, dando-lhe brilho com óleo especial.” O que mais chocava a sociedade portuguesa, católica e conservadora era a poligamia.
No dia em que anunciaram a mudança para Angra do Heroísmo, a Gungunhana foi dada a possibilidade de escolher uma das mulheres para o acompanhar. Não o fez. Ou iam todas ou não ia nenhuma. As sete acabaram deportadas para deportadas para São Tomé e Príncipe. Foram entregues cobertores e calças de brim aos cativos. “Que por sinal não lhes serviam.”, diz Carlos Enes. “As de Gungunhana, por exemplo, rasgaram-se logo que subiu para o trem.” O acidente suscitou troça de Zixaxa.
O desembarque em Angra do Heroísmo, a 27 de junho de 1896, foi mais humano. Os ilhéus tinham sido sensibilizados para receberem dignamente os desterrados: “Respeitemo-los pois, e que se lhe amenize, quanto possível for, a tristeza do exílio.”, escreveu a União.
(…) Foram levados para o Forte de São João Baptista, que já tinha sido o destino do degredo do rei português D. Afonso VI. “Quando fui destacado para o quartel de Angra, no Forte, o que mais me fascinava era a passagem do Gungunhana”, diz o coronel Luis Sodré de Albuquerque, director do Museu Militar, em Lisboa, que tem no seu acervo a espingarda e espadas de Gungunhana, bem como umas calças gigantescas que se pensa terem-lhe pertencido. “Mas nunca descobri em que sala tinha estado preso.”
Segundo Carlos Enes, ficaram “numa ampla caserna, durante o dia, e à noite numas pequenas casas junto à porta de armas”. Nos primeiros meses, podiam apenas passear pelo recinto do Forte até às 20 h, recolhendo depois à cela. Mas as medidas de segurança foram-se suavizando, permitindo aos reclusos o acesso ao Monte Brasil, um promontório vulcânico cuja única saída para terra passa pela fortaleza, e mais tarde à própria cidade de Angra do Heroísmo.
Recebiam visitas frequentes e até de São Miguel chegavam curiosos para os conhecer. “Para efeitos de vencimento e alimentação foram equiparados a sargentos adidos: recebiam pão, o rancho de oficiais inferiores e o pré-diário de 260 réis”, com Carlos Enes.

Fotografia conjunta com os 4 prisioneiros

Segundo testemunhos da época, Gungunhana alternava entre as boa-disposição e a melancolia, falando muitas vezes das mulheres que deixara para trás. Molungo, carrancudo e desconfiado, nunca se deixou seduzir pelos brancos, rejeitou aprender português e os costumes locais. Já Godide, seu filho, sempre demonstrou ser um rapaz loquaz e divertido, era o que gerava mais simpatia entre os ilhéus da Terceira, alimentando sempre a esperança de voltar ao seu reino, de preferência, confessou a um jornal, “casado com uma mulher branca”.
Zixaxa manteve sempre o porte altivo, como se nem o degredo lhe apagasse a identidade de chefe militar. (…)
O passatempo preferido dos augunes era a caça ao coelho bravo, no Monte Brasil, “Faziam-na com paus afiados, segundo a tradição zulu, de que descendiam”, afirma Sodré de Albuquerque.
“Apanhavam com cães e furão, às vezes oito a dez coelhos, que depois cozinhavam à sua moda, acompanhando o festim com vinho tinto em tal quantidade que ficavam perdidos de bêbados. Era o seu fraco”, escreveu o jornal Vida Académica, em 1936, o tenente-coronel José Agostinho, que com eles conviveu na ilha.
Os africanos eram também vistos nas tabernas de Angra do Heroísmo e, mais segundo a tradição oral do que em registos escritos, eram levados às prostitutas da povoação.
Os açorianos seguiam a vida dos forasteiros com atenção e fizeram-se notícias da noite em que Gungunhana caiu da cama ou mesmo dos seus hábitos de limpeza. (…)
 Gozavam de grande popularidade; as meninas usavam chapéus com abas “à Gungunhana”, o Teatro Angrense dedicou-lhes a peça “Gungunhana nos Açores”, a fábrica de tabaco Flor de Angra oferecia brindes com as suas fotografias.
Postal Ilustrado de 1904, com os 4 desterrados já com com os seus nomes de baptismo


Por pressão das autoridades, foram baptizados em 1899, na Sé Catedral, numa cerimónia pomposa e muito participada. Trajados com fraque, lenço, cartola e polainas, foram apadrinhados pela elite da sociedade angrense e adoptaram nomes cristãos: Reinaldo Frederico Gungunhana, António da Silva Pratas Godide, Roberto Frederico Zixaxa e José Frederico Molungo. A predominância do nome Frederico serviu de homenagem ao governador do Forte, o general Frederico Augusto Pinheiro."
Após 10 anos de desterro, devido a vítima de hemorragia cerebral, o rei faleceu com 60 anos, a 23 de dezembro de 1906. Foi enterrado na véspera do Natal rodeado de seus companheiros e pouco mais participantes. Seu filho sucumbiu em 1911 com tuberculose e no ano seguinte seu tio Molungo.
Zixaxa foi o único que perdurou tendo tido dois filhos de uma açoriana e ficado a trabalhar como guarda do Monte Brasil até ao fim de vida ao qual sucumbira a uma lesão cardíaca em 1927.


O regresso:
A sua trasladação e requisição foi previamente solicitada por Samora Machel, aproveitando sua visita a Portugal, considerada como visita de reconciliação e fraternal entre os dois países.
A 4 de outubro de 1983, a autorização foi concedida por despacho de Mota Amaral, então Presidente do Governo Regional dos Açores permitindo que a 7 de outubro de 1983, aquando da chegada do Presidente moçambicano.
Chegada de Samora Machel a Portugal, a 7 de outubro de 1983

Infelizmente este processo criou algum desconforto entre as relações dos dois países, pois Gungunhana tinha sido enterrado em sepultura para pobres e muitos cadáveres lhe haviam sucedido naquela cova tornando-se impossível o reconhecimento das suas ossadas.
A decisão foi de se levantar umas ossadas quaisquer, encaixotá-las e enviá-los ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O gesto não caiu bem e o Governo revendo a sua posição inicial entendeu como mais adequado entregar ao presidente moçambicano apenas uma caixa com terra do local onde tinha sido enterrado.
Assim foi, do cemitério foi retirada uma porção de terra para um pote de cerâmica e pronta para ser enviada, tendo ficado dois anos à espera na capela do Palácio das Necessidades, em Lisboa, a aguardar que Moçambique preparasse uma cerimónia de trasladação condigna.
No entanto o episódio ainda fez correr muita tinta. Insatisfeito com a dimensão do pote, Samora Machel dirigiu ao governo português uma carta exigindo o cadáver real, e num caixão, sob o risco de o povo não levar a sério o acontecimento.
Quando se julgava que Gungunhana podia finalmente repousar em paz nas margens do rio Limpopo, o seu busto em Mandlakazi foi vandalizado por membros de uma etnia rival dos augunes, os chopes.
Finalmente, a 15 de junho de 1985, os moçambicanos nunca tinham visto um caixão tão belo a aterrar em solo moçambicano com os restos mortais de Gungunhana. O caixão tinha 2.0 m de comprimento e 0.75 m de altura, pesando 225 Kg e apresentando uns baixo relevos do escultor Paulo Cosme.
Um desfile que percorreu num cortejo pela cidade, seguida por milhares de pessoas, até ao Salão Nobre do Conselho executivo, de onde sairia mais tarde para a sua morada final, a Fortaleza de Maputo, com lápide de herói nacional. Nele apenas restava um punhado de terra do cemitério da Conceição, de Angra do Heroísmo, onde fora discretamente enterrado sem direito a lágrimas nem tiros de canhão.
Gungunhana ficará para a história de que foi e será sempre uma figura contraditória: um hábil negociador, pródigo em fazer alianças para segurar o império, mas sem pudor para matar inimigos, mulheres e crianças; e um líder temerário que, na derrota, se desfez em lágrimas e em súplicas para evitar a morte, preferindo ser exibido em Lisboa como troféu da glória colonial.
Já passados mais de cem anos após a sua morte muito se escreveu sobre esta figura, com histórias, contos e lendas, verdades ou mentiras, retiradas de relatos escritos e orais. 
Poderão ler ainda mais sobre Gungunhana em obras cuja investigação e veracidade poderão acrescentar sobre a sua vida.





Fontes e Informações e fotos retiradas de:
- http://ardinadarede.blogspot.com
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29 de agosto de 2019

Sociedade do Calhau - Bonfim, Porto

Convite
retirado de O Tripeiro, n.º 6 - Vol. I (maio 1982)


Sociedade do Calhau (Provisório)
Bonfim – Porto

Os pressupostos e razões desta publicação:
O tema, embora não totalmente enquadrado com os propósitos deste blogue, levaram a 4 razões fundamentais que motivaram a apresentação da extinta associação nesta página.
1º - Sendo natural do Bonfim e a vivência da minha juventude próxima do local da sua sede, bem como da minha actual residência se encontrar adjacente à sede desta associação;
2º- Memórias retiradas de uma edição de um livro de família, cujas referências à Sociedade do Calhau me mereceu a maior das atenções;
3º- Recente contacto com vizinha e autora do mesmo tema, de um trabalho pessoal da Dr.ª Maria José Moutinho Santos, da qual recebi cópia de um documento, sobre o assunto em questão, editado em “O Tripeiro”, n.º6, volume I de 1982;
4º – Assunto praticamente desconhecido de todos e que merece ser deixada como memória futura, da sua existência;
Google Maps - localização na Rua do Bonfim - Porto

A sua história:
Felizmente esta narrativa chegou até a actualidade, através da memória obtida pela geração seguinte dos interlecutores da Sociedade do Calhau, isto é através dos seus filhos e que os então ainda vivos rondarão a idade entre os “setenta e oitenta”.
Filhos estes que guardaram nas suas lembranças as histórias contadas desta Sociedade, por seus pais, que foram elementos participativos nesta associação recreativa e que perdurou por um período aproximado de duas décadas de vivência.
Tudo terá começado nos inícios do séc. XX, em que a sociedade portuense se encontrava em evolução, colmatando a pobreza das actividades culturais e dum quotidiano pacato com a procura de alternativas através de associativismos por parte da gente local para combater o ócio e a pretexto de soluções por novas diversões.
O País atravessava um período de transição entre a Monarquia e a Republica, para esta gente comum e com a corrente republicana em curso, pelas notícias que eram divulgadas, permitiam-lhes tornarem-se diferentes e mais participativos.
Era o resultado de um quotidiano simples, e estas associações estavam centralizadas em áreas localizadas da cidade e organizadas em grupos de amigos.
À época, a sociedade masculina era bem vincada com a presença exclusiva de núcleos restritos para homens, e no Bonfim esta sociedade recreativa se centrava com Gente de certos bens, vizinhos e amigos, na sua maioria industriais, comerciantes ou com atividades cuja vivência lhes permitia o ócio, o recreio e o lazer.
Esta história que iremos descrever servirá de memória futura da vivência nos inícios do século, para a cidade do Porto e directamente para a freguesia do Bonfim, pois foi na rua com mesmo nome em que tudo terá começado.
Antes da sua verdadeira fundação era intitulada de “Grupo do Calhau Provisório” e pouco depois, em Novembro de 1901, foi fundada como “Sociedade do Calhau” com sede na Rua do Bonfim, localizada nas traseiras do rés-do-chão do nº. 194/196, edifício este que ainda hoje existe, mas transformada em habitação moderna, como muitas outras requalificações de que a cidade do Porto se vê transformada neste séc. XXI.
Este espaço estava associado a uma carpintaria cuja personagem era proprietário, José Maria Ferreira, pessoa de grande dinâmica e o grande impulsionador desta agremiação.
Mas tudo terá começado numa sala das traseiras da mercearia de José Alves Leite, do nº. 216, onde se reuniam os seus fundadores e tinham o costume, ao serão, de se encontrarem e ficarem em amena cavaqueira a jogar cartas, conversar e jogar o “Solo”.
foto de José Maria no seu aniversário, em 1910
retirado do livro de família "Origens"

Esta constância diária e a falta de diversão terá sido o motivo de terem despoletado a criação de uma associação e por sua vez terem incumbido o José Maria à compilação das regras da fundação da sociedade e, ao qual numa das sessões terá dito “vamos então assentar o primeiro calhau no alicerce da nossa Sociedade!”.
Terá sido provavelmente com esta frase que o nome da sociedade se denominou passando a designar-se “Sociedade do Calhau” e que a partir da sua constituição cada sócio terá passado a usar na sua lapela um simbólico e pequeno “calhau” engenhosamente suspenso de uma rede feita em croché.
Mais tarde este símbolo seria substituído por um mero cartão de identidade tornando mais opaca a sua identidade.

(…) Feitos estes estatutos, criado um hino, organizadas as cerimónias de inauguração, das quais constava um baile de máscaras que obteve um enorme sucesso, começaram as actividades ordinárias.
Diariamente, ao serão, juntavam-se os sócios para a habitual conversa e para a partidinha de cartas. Os ganhos à mesa do jogo eram destinados a um fundo comum, utilizado para custear saborosas ceias, (confeccionadas divinamente pela mulher do dito José Maria) e piqueniques em certos domingos, a Valongo e a Gondomar.
Os saraus dramático-musicais, de que se destacavam os de sábado de Aleluia, em que participavam sócios, familiares e amigos, constituíam os pontos altos das realizações culturais.
Por várias vezes também, foram feitas homenagens a grandes figuras do tempo, como, por exemplo, Guerra Junqueiro e Duarte Leite. (…)
foto de conjunto - retirado do livro de família "Origens"

Para além destas actividades mais abertas à comunidade a sociedade contemplava muitas outras acções com espírito de lazer, de recreio e muitas vezes de diversão.
Um destes exemplos proveio da imaginação de José Maria, derivada da sua arte de carpintaria e da utilização da sua maquinaria em que terá inventado uma pequena caixa de “fazer dinheiro”.
Era uma caixa em madeira constituída por dois cilindros, que por um processo primitivo mas engenhoso permitia inserir-se papel branco, com o tamanho de uma nota, e fazer sair por outra ranhura, notas verdadeiras que já lá dentro se encontravam reservadas.
Ora, com este mecanismo os elementos da sociedade saiam pela cidade do Porto a apresentarem a sua máquina de “multibanco” que causavam espanto, duvidas e inveja.
Tendo em conta que um dos sócios trabalhava num banco, permitia-lhes com que as notas que saiam desse mecanismo se tornavam novinhas e perfeitas, demonstrativas da sua veracidade, que por vezes nos seus eventos ao accionarem a demonstração da sua invenção para providenciarem o dinheiro para efeitos de pagamentos, ora, demonstravam a desconfiança e a relutância na recepção por parte dos revisores dos transportes públicos e lojistas causando dúvidas da sua autenticidade.
Esta pequena máquina teve como principio apenas a diversão para brincadeiras entre os amigos através destes pequenos actos. Porém, a novidade, a curiosidade e o êxito alcançado fez daquela máquina de dinheiro o “centro de uma prodigiosa encenação”. A finalidade era em atrair indivíduos ambiciosos, lorpas e sem escrúpulos para enriquecimento pessoal, de forma fácil e rápida.
Este “isco” de atracção de riqueza foi concebida com o auxílio dos sócios e alguns amigos, que por parte de Zé Maria montou um esquema imaginativo e que a Sociedade do Calhau promoveria na conquista de candidatos à fortuna, através da realização de eventos na sua agremiação com actividades “secretas”, como de uma poderosa “rede” oculta existisse e cuja encenação servia de pretexto a brincadeiras entre amigos e por estranhos ávidos de fortuna, que por vezes se estendiam ao estrangeiro.
Estas personagens eram, em regra, angariadas pelos sócios, amigos ou familiares que se faziam como assunto de partida e como forma de aproximação, através de pedidos de empréstimo ou em desabafo de ambição de dinheiro, sendo numa primeira fase analisado o seu grau de aspiração e ambição ou de lorpice que permitisse a convocatória de um evento por parte da associação.
Com o desenrolar do estudo de cada personagem era-lhes permitido verificar se reuniam as condições necessárias, como suficientemente ambicioso ou suficientemente parvo, para o preparar e de modo cuidado, com a insinuação de possibilidade de conseguir o dinheiro pretendido de forma a serem criadas as expectativas da realização do seu sonho de grandeza promovendo a encenação necessária para esse efeito.
Dos relatos ocorridos fazem referências a 51 pretendentes à fortuna e que culminaram em processos com sessões nocturnas no edifício traseiro da Rua do Bonfim e sede da Sociedade.
Estas sessões, de autênticas encenações, traziam ao Porto propositadamente, amigos e familiares dos sócios e de figuras de maior relevância, tais como de um governador civil. É narrado que esteve prevista uma figura de grande relevo político da época em uma das sessões mas que não terá ocorrido.
Pode-se concluir que ao longo da sua existência, a associação deparou-se com todo o tipo de indivíduos desejosos de riqueza, desde o simples humano que a todo o custo pretendia a melhoria da sua condição de vida, como por comerciantes e homens de negócios desejosos de aumento do seu poder económico, passando por pessoas endividadas e estudantes sem vintém.
Escolhido o candidato, era-lhe revelada a existência de uma “Sociedade Secreta” com fins de ajuda humanitária para homens com coragem e ambição e que para obter essa ajuda bastaria cair nas boas graças do Barão, o presidente dessa sociedade.
Para tudo isto se processar bastaria uma “carta de recomendação” de um dos seus melhores amigos ao que este candidato se tornaria intitulado “Porta”, designação retirada da expressão popular “Burro como uma porta” e que quantas mais cartas de recomendações arranjasse mais influência tinha em todo o processo.

(…) Naturalmente que o “peixe” era encarecido, regateado, mas a pretensão, obviamente, era sempre aceite, acordando-se de imediato com ele a prova de avaliação da qualidade do candidato a iniciado. Estavam em voga as sociedades iniciáticas, como a Maçonaria e era evidente que uma tal “sociedade” e “com tal poder”, não podia ser aberta a qualquer um. Depois de uma pretensa conferência com o secretário da sociedade, Zé Maria, ficava marcada, em definitivo, a iniciação para dali a uma semana.
Suponho que foi na sequência do primeiro destes “voluntariosos associáveis” que germinou a ideia do “décor” que se desenvolveu em casa do Sr. Zé Maria. O terreno das traseiras da sua casa desenvolvia-se em dois socalcos, um ao nível do rés-do-chão e outro, mais recuado, ao nível do primeiro piso. A conformação do terreno nas traseiras permitiu uma utilização adequada aos objectivos do “Grupo do Calhau”. No espaço do quintal, existia um barracão que foi transformado pelo Zé Maria para os desígnios da Sociedade.
Do longo corredor, já anteriormente referido, acedia-se ao local secreto da iniciação. Desembocava-se num sala em que a parede do fundo era preenchida por um pequeno palco, adequado à dimensão do espaço disponível. À semelhança de qualquer teatro, o palco tinha cortinas e um fosso sob o estrado, para onde se entrava por uma pequena e estreita porta lateral. Tudo com muito pouca ou nenhuma luz natural e, à noite, iluminado apenas pela chamas bruxuleantes de algumas velas, que a luz eléctrica só veio mais tarde.
O mestre carpinteiro era um verdadeiro artista e, com a sua extraordinária habilidade manual, construiu um esqueleto em peças de madeira, que para o tipo de material e para a época, era muito real. Engenhosamente articulou-o com pequenas ligações em arame, de tal modo que, se suspenso pelos ossos dos ombros e da cabeça, à semelhança das marionetes, podia mexer-se todo, quando convenientemente manipulado por intermédio das linhas pretas, que lhe estavam ligadas. Paralelamente e aproveitando uma raiz de figueira, com um feitio vagamente parecido com uma caveira, o Zé Maria, melhorou-lhe as semelhanças, deu-lhe uns toques de formão e transformou-a no “Cranéu do nobre ancião fundador da Sociedade”, objecto que foi “dramaticamente” enquadrado num armário de vidro, tipo santuário e que passou a ser objecto de “culto obrigatório” dentro da sociedade.
Conhecida uma data e havendo um candidato, desenvolvia-se uma preparação frenética da recepção ao futuro “iniciado”, o “Porta”. Pendurava-se o esqueleto no palco, levava-se cal e terra para o fosso do palco, colocavam-se as velas de modo estrategicamente calculado e preparava-se “o pacote do Porta” – um significativo volume devidamente atado e lacrado, etc..
No dia estipulado, sempre a um sábado, era colocado, na porta de entrada do edifício, um letreiro anunciando: “Hoje há Porta!” Já muito antes da hora marcada, propositadamente nocturna, os “Calhaus”, posicionados no local do encontro, no terreiro do actual Campo 24 de Agosto, cavaqueavam em pequenos grupos, convenientemente dissimulados entre a vegetação aí existente, aguardando a chegada do “Porta” que, de modo invariável, chegava com grande antecipação e denotando compreensível nervosismo.
Faziam-no sofrer de modo penoso, atrasando a chegada do emissário dos “Calhaus”, enquanto se deleitavam a vê-lo, muito oprimido, esfregando as mãos, desesperado, passeando-se, nervosamente, dum lado para o outro. Os espectadores regalavam-se com a cena e com a antecipação da barrigada de gozo que iriam desfrutar. Por fim, “condoídos” com o sofrimento do “infeliz”, lá aparecia o emissário, devidamente encapotado, chapéu puxado para os olhos, gola de pesado capote bem levantada, enfim um verdadeiro conspirador! A cara do paciente mudava radicalmente. Apesar de assumir um ar conspirativo, um sorriso rasgava-lhe a face de lado a lado.
- “Disfarce homem! Disfarce! Ninguém nos pode ver aqui e muito menos juntos”, dizia-lhe o emissário.
- Tá bem, Tá bem! O que devo fazer?
- Você vem atrás de mim, distanciado uns bons 50 metros, mas sempre atento àquilo que eu faço e, o que eu fizer, você imita imediatamente. Não podemos levantar suspeitas”.
- Teja descansado que eu faço tudo o que o senhor quiser!
- Na porta onde eu entrar, você espera uns minutos e depois bate o toque secreto – três toques rápidos, seguidos de dois toques bem separados, mas isto baixinho e, finalmente, uma só pancada bem forte. Entendeu?
- Sim senhor, eu assim faço!
Começava uma caminhada nocturna, verdadeira odisseia ao longo de cerca de 300 metros, subindo a Rua do Bonfim, recheada de pequenas peripécias. Sempre que aparecia alguém e muitas vezes eram outros “Calhaus”, o emissário escondia-se, cozendo-se com as sombras dos umbrais das portas, atravessando e reatravessando a rua, vezes sem conta. É óbvio que o candidato a iniciado, o “Porta”, fazia exactamente o mesmo, perante o gáudio do grupo que, convenientemente afastado, ia observando toda a cena.
Depois de um trajecto muito “dissimulado” e “sofrido “e, o emissário fazia a batida secreta, a porta abria-se e ele desaparecia no interior da casa.
Cá fora, o “Porta”, olhava nervosamente à sua volta, a ver se alguém tinha reparado nele, mas, naquele tempo, à noite, com ruas muito escuras apenas iluminadas pela fraca luz dos raros candeeiros a gás, pouca gente passaria àquela hora, a não ser os próprios “Calhaus”.
Enquanto o paciente esperava no exterior, lá dentro desencadeava-se uma intensa actividade. O operador do esqueleto que não era outro senão o jovem Ruy Marcelino, ia para o fosso do palco. Um dos “Calhaus” fundadores da Sociedade e seu Presidente Honorário, Alfredo da Silva Coutinho, conhecido entre os seus congéneres pelo Barão do Calvário, ia também com ele meter-se lá debaixo e os outros colocavam-se em posições estratégicas, preparando-se para receber o visitante.

Alfredo da Silva Coutinho - foto retirada do livro de família "Origem"

Finalmente, no batente da casa do Zé Maria carpinteiro, ressoavam as pancadas do código. O emissário encapotado abria então uma nesga da entrada e o nosso “Porta”, candidato a milionário, por lá se esgueirava, entrando tão dissimuladamente quanto se possa imaginar nestas rocambolescas circunstâncias. Percorriam então o grande corredor, apenas iluminado pela nesga de luz das velas, que se escoava por baixo da porta que, lá no fundo, barrava o acesso à divisão seguinte – a sala da cerimónia.
A entrada na sala era tão conspícua como toda as cenas anteriores. Lá dentro, todos os presentes estavam encapuçados com máscaras feitas de cartuchos horrorosamente pintados e, sempre em ambiente de grande mistério e pouca luminosidade. Para dissimular o riso que irrompia em quase todos os presentes, era constantemente sussurrado ao ouvido do Porta:
- Disfarce, homem, disfarce!
E o desgraçado fazia como podia para disfarçar o que ele nem sabia quê, nem como.
Entretanto, o número dos presentes ia engrossando com a chegada dos restantes membros que, no exterior, tinham estado a gozar o espectáculo da viagem e, ao entrar, todos iam repetindo o toque da batida secreta.
E o tempo ia passando, demasiado lentamente para a ânsia do candidato a iniciado. Sobre o palco, uma mesa na qual se sentavam as duas únicas pessoas de cara descoberta. Um era o secretário (o Zé Maria) e um outro, o tesoureiro da sociedade secreta. Ao centro da mesa, uma terceira cadeira de espaldar elevado, permanecia vazia. Um autêntico palio de igreja, suportado por seis membros encapuzados que denotavam expectativas, premonizava a chegada de algo muito solene.
- E quando começa a cerimónia? Então estamos à espera de quê? 
- Tenha calma homem, Tenha calma! Estamos à espera da chegada do Grão-mestre da nossa irmandade, o Venerável Barão do Calvário. Ele vem de muito, muito longe, por uns subterrâneos que passam por baixo do rio Douro e atravessam a cidade até aqui. Não é por acaso que estamos nesta casa. Tenha paciência que vai tudo correr bem. Mas pela sua saúde homem, disfarce, disfarce!
O pobre “Porta” imitava os seus circundantes que, de gola levantada e cara tapada por um cartucho, passeavam desordenadamente à sua volta. Com frequência chegava-se um deles junto do paciente e, propositadamente, largava um sonoro traque que deixava o homem assarapantado, enquanto o guia lhe dizia:
- Não estranhe, não estranhe, isto é só para disfarçar por causa dos vizinhos...
- Então e quando começa isto?
- Tenha calma… tenha calma!
E toda a gente consultava os seus relógios de bolso, como que preocupados com o atraso do Grão-mestre, sussurrando e murmurando audíveis comentários entre eles.
Subitamente ouvia-se uns ruídos por baixo do palco e toda a gente ficava especada à espera de ouvir mais.
- Ele já vem aí! Ele já está a chegar!
Então os seis membros que suportavam o palio, chegavam-se até junto da pequena porta lateral do palco. Esta abria-se e, finalmente, de lá saía um cavalheiro, muito bem vestido, de capa preta com estola, casaca, cartola, luvas brancas e bengala de caçonete de prata, que não era outra pessoa se não o próprio, o ansiado, o estimado, o inestimável, o venerável, o insubstituível, Barão do Calvário (Alfredo da Silva Coutinho), mui digno Grão-mestre da irmandade do “Grupo do Calhau Provisório”. 
Sob o palio, começava de imediato um beija-mão que todos gostosamente executavam. E perguntava o Barão:
- Então e porque é que me “fizésteis” vir aqui de tão longe, sofrendo os horrores destes subterrâneos pestilentos, cheios de ratos e humidade! Há mais de duas horas que caminho. A parte do túnel debaixo do rio Douro está toda alagada… As velas apagaram-se tantas vezes que acabei por gastar os fósforos e tive de caminhar às escuras. Por mais de meia hora andei às apalpadelas para chegar cá! Enfim, uma grande maçada.
Enquanto falava, ia sacudindo dos ombros e das mangas, cuidadosamente, usando as luvas brancas como se de escova se tratasse, o pó da cal e a terra com que se tinha sujado propositadamente debaixo do palco. E o Zé Maria, sempre ele:
- Saiba Vossa Senhoria, Venerável Grão-Mestre, que temos aqui um eventual novo membro da nossa irmandade, um verdadeiro “Porta”!
- O quê? E “achaindes” que ele reúne as condições para a total devoção à nossa causa?
- Já o avisamos dos sacrifícios, da dedicação, do secretismo, da total devoção e das provas que tem de prestar para ser iniciado no nosso meio!
- E já avaliaram da sua família, das suas origens, do seu estofo moral e do merecimento eventual de tal benesse?
- Sim Venerável Grão-mestre. Foi feita, por membros da nossa irmandade, uma investigação aturada sobre o pretendente.
Perante a revelação de uma investigação familiar, o tal candidato tremia como varas verdes.
- E a que conclusão “chegásteis” vós?
Saiba Vossa Senhoria, Venerável Grão-Mestre, que o pretendente apresenta grandes insuficiências como candidato, mas o Conselho da Irmandade, reunido secretamente em plenário e neste local, antes de ontem, concluiu que, se ele responder adequadamente a todas as provas da iniciação, poderá ser acolhido do nosso seio.
- Pois se assim o “achásteis” vós, que seja iniciada a cerimónia.
Iniciava-se então uma sessão de “espiritismo” para verificação da “aura” do “Porta”, durante a qual ele tinha de dançar, imitando os movimentos do esqueleto, supostamente movimentado pelo espírito de um dos antepassados do grupo. A música de acompanhamento da dança, cantada pelos presentes, era a muito conhecida:
“Ora ponha aqui, ora ponha aqui o seu pezinho/ ora ponha aqui, ora ponha aqui ao pé do meu/ e ao poisar e ao poisar o seu pezinho/ e um beijinho e um beijinho lhe dou eu….”
Debaixo do palco, iam puxando as linhas pretas conforme lhe desse na gana, e o mais possível de acordo com a música, enquanto o “Porta” fazia os movimentos mais desesperados para imitar o movimento do “além”, perante as risadas desenfreadas dos presentes. E o Barão descontraía a sessão com uns “Riainde-vos” seguido de um tonitruante “Calainde-vos”. Um fartote de gozo!
O próprio Barão tinha a deferência de informar o “Porta” que tudo aquilo era para que os vizinhos não desconfiassem do que ali se passava.
Acabada a sessão de espiritismo, o Sr. Barão dirigia-se para a mesa, sobre palco, nela se sentando na presidência, devidamente acolitado pelo secretário e tesoureiro da organização.
Começava então a suposta leitura da correspondência recebida desde a última sessão, em que, Zé Maria, de improviso e perante umas folhas de papel em branco, ia discorrendo, com espantosa verborreia, cheia de graça natural, um conjunto de agradecimentos, pedidos, notícias e outros eventos considerados oportunos, que a sua extraordinária capacidade criativa ia ditando. Os assuntos eram sempre relacionados com necessidades de dinheiro. A cena e os disparates faziam fungar de riso todos os membros da assembleia, e então, para descontrair a sessão, comandava o Barão de novo:
- “Riainde-vos” e, após a descarga de riso, outro tonitruante “Calainde-vos”.
Por vezes o Sr. Barão, perante um pedido de dinheiro de pequena monta, exagerava e dizia para o secretário.
- Carregue nisso homem, carregue nisso. Dê-lhe três contos!
Perante as risadas gerais, o acompanhante do futuro “acólito” ia-lhe sempre sussurrando ao ouvido:
- Não estranhe homem, não estranhe que as risadas são só para disfarçar, por causa dos vizinhos.
Terminado o despacho burocrático, iniciava-se a procissão cerimonial. O Barão do Calvário colocava-se debaixo do palio suportado pelos seis confrades encartuchados, e todo o grupo, em procissão ritual, com o “Porta” atrás e o Zé Maria à frente agitando o turíbulo do incenso, rodava em sucessivas voltas, em torno daquela sala, enquanto todos os presentes entoavam uma lamuriosa cantilena que dizia:
- O culpado é o “Porta”!
Durante toda esta procissão, o macabro esqueleto, bem accionado pelo seu jovem manipulador, desempenhava um papel fundamental de pressão psicológica sobre a iniciação do “Porta”. O movimento à luz das velas, daquele tétrico espólio, deveria constituir algo de verdadeiramente aterrador para o candidato a iniciado.
- É chegada a altura de venerarmos o nosso fundador. Tragam o “Cranéu do nosso nobre ancião progenitor - comandava o Barão.
Com uma postura extremamente preparada, estudada e beatífica, o Zé Maria, removia o “Cranéu” do santuário em que estava em exposição. A “caveira” havia sido, previamente, besuntada com uma ligeira camada de um produto humano de cor castanha, de consistência pastosa, de odor penetrante e desagradável e de expelição obrigatória, normalmente quotidiana.
A procissão terminava junto a uma espécie de altar onde o “Cranéu do nobre ancião fundador” era depositado, com todas as honras.
- Leia-se a "Oração de Sapiência".
No mais profundo e reverente silêncio dos presentes, o Zé Maria lia uma oração, por si concebida e redigida, um verdadeiro monumento ao gongorismo “verborreico”, repleta de palavras inexistentes mas extremamente sonoras e redundantemente extravagantes. (…)
Acabada a oração de sapiência processava-se, formalmente, a iniciação do candidato.
- Proceda-se à vassalagem ao “Cranéu”, tornava o barão.
E o “Mestre-de-cerimónias”, que não era outro senão o mirabolante e engenhoso Zé Maria, de costas para o “Porta”, ajoelhava e simulava um beijo no escultórico artefacto. E, virando-se, orientava o “iniciado”:
- “Porta”, ajoelhe! Beije o “Cranéu nobilíssimo”.
Ele assim o fazia, enquanto o “Mestre-de-cerimónias” e os restantes “Calhaus” verificavam, perdidos de riso, se ele tocava ou não os lábios em tão “sagrado” “ícone”. Com repugnância, mas sem hesitações, o “Porta” beijava mesmo tal objecto de culto, pois que a tanto o obrigava a ganância do futuro risonho. O secretário, prontamente, entregava-lhe um lenço e dizia-lhe:
- “Alimpe-se” .
Iniciava-se um interrogatório feroz e ridículo, com perguntas às quais não era dado tempo de resposta, sendo estas, pelo contrário, respondidas de imediato com disparates saídos da fértil imaginação de Zé Maria e que faziam escangalhar a rir a “nobel” assembleia:
- O “Porta” sabe quem era Maria Antonietta? E perante a indecisão o Zé Maria completava:
- Era uma mulher que andava pelas ruas de Paris a tocar trombeta!
Finalmente a prova decisiva. O “Porta” era posto perante o dilema de as suas raízes familiares terem sido consideradas de qualidade inaceitável pelos “irmãos”. Era-lhe então perguntado se ainda estava disposto a entrar, de facto, para a Sociedade Iniciática do Calhau Provisório.
- Sim! respondia ele de imediato e sem hesitações
- Mas isso passa pela eliminação de certos aspectos familiares que foram considerados contrários à dignidade, ao secretismo e aos objectivos da nossa Sociedade - afirmava-lhe o “Mestre-de-cerimónias”, irmão Zé Maria,. Teria que acabar com esses laços, de maneira definitiva e de modo radical. Só assim haveria a possibilidade de isso não vir a afectar a pureza da irmandade.
- Sim!, respondida sem hesitar o “Porta”
O tom das perguntas e das tarefas a desempenhar, iam subindo de exigência e dramatismo, ao sabor do extraordinário espírito inventivo e do improviso do Zé Maria, o que deixava todos ao “calhaus” completamente desaustinados de riso, mas o “Grão-mestre”, sempre oportuno, acrescentava:
- Olhe, não ligue aos risos que isto é só para disfarçar, para os vizinhos não saberem o que aqui se passa!
De chofre, o Secretário perguntava ao “Porta”:
- Estás disposto a entrar mesmo que tenhas de matar alguém?
- Sim, respondia(m todos) sem hesitações.
- Pois fique sabendo que a sua mãe não tem condições para que possa aceder a esta Sociedade. Tem de ser eliminada!
Que sim! Que estava disposto a tudo para pertencer a semelhante irmandade, respondiam invariavelmente todos os “Portas” que por lá passaram, baixando ao máximo da degradação humana, pela ganância do dinheiro fácil e abundante.
Atingia-se o paroxismo quando lhe era proposta que, para não despertar suspeitas, fosse ele o executor da própria mãe, embora utilizando meios e condições facilitados pelos “Calhaus”. A tudo se sujeitava o ganancioso, completamente vendido à ideia do dinheiro da caixa de madeira.
Os pormenores do assassínio eram então combinados e acordado o dia e o modo. Todos os que por lá passaram e foram muitos, aceitavam o crime sem pestanejar, convictos que ficariam impunes, cobertos pela capacidade de realização e pelo poder, da irmandade e do dinheiro.
Era esta a mais terrível prova porque passava o candidato, e também a última, no final da qual, era lida de novo a oração de sapiência.
Terminada a oração, agora de homenagem ao “iniciado”, o candidato era considerado membro do grupo e formalmente empossado, recebendo, de joelhos, como mandavam as regras da cavalaria, primeiro as insígnias da irmandade — um pequenino calhau envolvido numa malha de fios (para pendurar na lapela) e, por último, o mais desejado presente e a razão de todo aquele processo: Um pequeno, mas pesado embrulho, lacrado e bem recheado. E era enviado de volta ao quotidiano.
Recomendava-se-lhe, expressamente, que disfarçasse e não abrisse o pacote senão no dia seguinte e já em casa, quando estivesse em segurança, para ninguém ver ou desconfiar. No caminho de regresso, para manter o secretismo de tal sociedade, e uma vez que ele já pertencia à irmandade, tinha de repetir, agora sozinho, as precauções tomadas na chegada. Avisavam-no ainda que, depois de sair, na rua, não devia olhar para trás.
Ele lá ia. Alguns momentos após a sua saída, os “Calhaus” presentes, seguiam-no dissimuladamente.
Estugando o passo, o “Porta” ansiava chegar rapidamente ao fim da Rua do Bonfim e, nessa altura, depois de olhar atentamente à sua volta, sem avistar ninguém (porque não há maior cego do que aquele que não quer ver) junto ao primeiro candeeiro a gás, abria precipitadamente o embrulho. Lá dentro encontrava uma carta e uma caixa de cartão, onde, bem almofadados por algodão, encontrava uma quantidade de pequenos calhaus. Genericamente, a carta era uma grande lição de moral, um verdadeiro libelo acusatório à sua falta de dignidade e à sua imensa ganância — que o tornava capaz de admitir assassinar a própria mãe. Na carta chamava-lhe pessoa sem escrúpulos e outros epítetos semelhantes, explicavam-lhe que tudo não passara de um logro, em que ele apenas caíra devido à sua desmedida ambição e à sua falta de honra e de princípios. Terminava de modo sentencial, afirmando que “só o trabalho é digno e que apenas dele pode advir o dinheiro!”
A frustração de todos os que foram submetidos a tal “tratamento” era tremenda e, a sua primeira reacção, era voltar lá atrás, à casa onde havia entrado, mas, após reconsiderarem algum tempo, provavelmente por vergonha ou por considerarem que aquilo apenas constituía mais uma prova que era forçoso passar, demandavam a sua habitação.
Acabavam quase todos por lá voltar mais tarde, encontrando o Sr. José Maria na sua carpintaria e ao reconhecerem-no, pediam-lhe encarecidamente que, de facto, os deixassem entrar, na tal irmandade. A estes era muito difícil retirar-lhes tal ideia da cabeça.
Com o desenvolvimento da experiência das sessões extraordinárias e até para evitar que os “Portas” reconhecessem o local da cerimónia, incomodando o Zé Maria, os sócios passaram a recolhê-los de automóvel, no Campo 24 de Agosto e mascarados, vendavam-lhe os olhos e obrigavam a viatura a dar várias voltas ao jardim, para simularem percorrer uma grande distância. Na saída repetia-se o processo inverso, sempre de olhos vendados.
Estas cerimónias “iniciáticas” deveriam ter tanta graça, que havia um juiz do Supremo Tribunal em Lisboa, que, se avisado antecipadamente, vinha de comboio, propositadamente, para a elas assistir. Também um Governador Civil do Porto esteve presente, pelo menos uma vez, numa dessas sessões. (…)”

A partir de 1916 a Sociedade começou a ressentir-se com o desaparecimento e afastamento de alguns dos seus membros, devido a doenças e falecimentos, embora com a força de José Maria se tentasse manter pelo seu voluntarismo e orientação à frente desta instituição.
Esta força de vontade e trabalho ainda se incentivaram através de actividades e espectáculos de teatro, de música e actos recitativos.
O cartão de identidade veio a substituir o anterior símbolo original dependurados na lapela e as sessões mais relevantes do “Porta” continuaram com o mesmo protagonismo, interesse e curiosidade das pessoas que buscavam um lugar nas sessões da Sociedade, logo que a notícia era divulgada.
Cartão de sócio
retirado da revista O Tripeiro, n.º 6 - Vol. I (maio 1982)

Finalmente em 1922 acabou por se extinguir a sociedade, ora por mudanças de vida e de novas responsabilidades de alguns ora pelo surgimento de uma outra sociedade, na Lomba, cujo teor e a má reputação terá deixado marcas negativas naquela época.
Estas associações, como muitas outras agremiações levaram à época, contributos sociais, culturais e atividades, pelos diversos locais da cidade de modo a se proporcionarem contactos e laços de amizade pela comunidade.
A quem ler esta divulgação e conheça mais histórias desta associação agradeço a sua divulgação.
Grato


Informação retirada de:
- O Tripeiro, nº. 6, Volume I (maio de 1982)
- livro de família "Origens - Pesquisa em torno de uma grande família"

Mais informações encontradas em O Tripeiro (não lidas)
- Sociedade do Calhau Provisório - Série I / Ano II / pág. 181 - 233
- Sociedade do Calhau Provisório - Série V / Ano IV / pág. 264 - 288
- Sociedade do Calhau Provisório - Série V / Ano XV / pág. 128
- Calau - Série I / Ano II / pág. 81