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Obrigado.

29 de janeiro de 2017

António Corrêa Lourenço - Quinta de Chão Verde

António Lourenço Corrêa (1828-1879), 
Quinta de Chão Verde, Venda Nova - Rio Tinto

Pintura em tela

Fotografia em quadro



Os Torna-Viagens:
Após a consequência da Revolução Liberal, da transferência da corte portuguesa para o Brasil e da independência do Brasil (1821-1825), permitiu que durante mais de um século, o Brasil e o continente americano se tornassem o destino de uma corrente migratória que se alimentava como o sonho de Eldorado que fascinou muitos milhares de portugueses.
Naquela época houveram quem regressasse à terra mãe e muitos terão por lá ficado, tendo formado família, ora ficado ricos, ora pobres, ou ainda remediados e que em regra estes últimos não regressaram por desgosto ou vergonha e até impossibilitados de o fazerem.
Os ricos e afamados permitiu-lhes alimentar o desejo de regresso e demonstrar aos da sua terra, no concelho e ao País que conseguiram alcançar o objectivo da “fortuna” e criado a riqueza desejada que lhes permitissem viver desafogados em Portugal sem quaisquer constrangimentos para o resto das suas vidas.
As suas fortunas em regra eram tão grandes que muitos se tornavam beneméritos com as ofertas de bens financeiros, de obras ou de outras intervenções pessoais que lhes permitiam serem reconhecidos publicamente e por vezes notabilizados com mercês reais e as consequentes pedras de armas pessoais.
Estas distinções tornavam-se tão banalizadas que muita imprensa e escritores da época, incluindo Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis e Almeida Garrett, usaram de comentários jocosos e irónicos, nas suas escritas diárias e de pequenos ditos e versos que ficavam na mente das pessoas e serviam de armas de arremesso a estes ilustres benfeitores, tais como:

“Foge cão, que te fazem Barão!
P’ra onde? Se me fazem Visconde.”
ou ainda,
“Quem furta é ladrão,
Quem furta muito é Barão,
Quem mais furta e esconde
Passa de Varão a Visconde.”
ou ainda,
"O brasileiro ou rebenta por lá
e ninguém fala ou
vem rebentar à terra
 e é "bisconde".


A família:
No caso da presente da casa “Brasileira”, foi seu proprietário António Lourenço Correia,mais um brasileiro Torna-Viagem que no séc. XIX emigrou para o Brasil com a ambição e ilusão da riqueza que aquele país alimentava.
As raízes genealógicas tiveram em Manuel Alves Corrêa e Quitéria Martins Vieira, nos seus bisavós e proprietários, no lugar de Tardinhade, em Salvador de Fânzeres, onde viviam numa casa típica de lavrador solidamente abastado do século XVIII cujo casamento está datado de 9 de fevereiro de 1796.
Seu bisavô era filho de João Alves e de Maria Ferreira de Jesus, do mesmo lugar, e neto paterno de Domingos Alves e de Maria João e materno de Manuel ferreira e de Maria Martins.
Sua Avó era filha de Alexandre Martins e Apolónia Vieira, do lugar de Montezelo, sendo neta paterna de João Teixeira e de Maria Antónia e materna de João Miguel e de Lourença Vieira.
Seus avós tiveram 10 filhos todos eles nascidos nesta casa, no lugar de Tardinhade e que foram:
Manuel Alves Corrêa, nascido a 27 de maio de 1796, esteve no brasil mas morreu em Portugal (1853?), solteiro e sem geração;
Maria Martins Vieira ou, também conhecida como Maria Martins Corrêa Lâmpada, nascida a 27 de outubro de 1797 e casou com João Afonso Vieira. Não terão deixado descendência.
Ana Martins Vieira, nascida a 12 de julho de 1799 e faleceu a 18 de setembro de 1876. Casou com José Lourenço, no lugar do Outeiro, a 10 de maio de 1827 e faleceu a 2 de fevereiro de 1853 e sepultado na igreja de Fânzeres. Este era filho de Manuel Lourenço e de Maria Pereira, neto paterno de Manuel Lourenço e de Ana Maria e materno de Manuel Pereira e de Ana dos Santos. Deste casamento nasceram três filhos, António Lourenço Corrêa (a personagem abordada), Bernardino Lourenço Corrêa, nasceu em 1830 e faleceu no Rio grande do Sul, a 22 de setembro de 1862 e Maria Martins Vieira (sem informação).
Catarina Martins Vieira, nascida a 6 de julho de 1801;
António Alves Corrêa, nascido a 23 de novembro de 1802;
Angelina Martins Vieira, nascida a 1 de abril de 1804;
José Alves Corrêa, nascido a 8 de maio de 1805 e falecido a 8 de dezembro de 1853, solteiro e sem geração, tendo deixado 98% da sua fortuna pessoal à Misericórdia do Rio de Janeiro e os restantes 2 % ao seu sobrinho António Lourenço Corrêa, fazendo dele um homem exageradamente rico, como se abordará no restante texto deste blogue.
Francisco Alces Corrêa, nascido a 5 de março de 1807 e faleceu sem geração;
Gertrudes Alves Corrêa (sem informação);
João Alves Corrêa, nascido a 20 de agosto de 1810, morava na casa da Rua do Poço das Patas, no Porto com sua esposa Ana Teresa do Nascimento, mas também terá passado pelo Brasil conforme correspondência existente.


Registo Paroquial - nascimento



A pessoa:
António Lourenço Corrêa terá nascido no lugar do Outeiro, em Fânzeres, a 31 de março de 1828, em casa de seus pais, terá emigrado para o Brasil com os mesmos fins de seus tios e irmão e por lá ficou até aos seus 35 anos de idade, cuja riqueza conseguiu rapidamente reunir, para além da fortuna herdada de seu tio José.
Na sua carteira profissional está referenciado como capitalista, designação muito frequente naquela época.
Da sua correspondência com o Marquês de Abrantes, D. José Maria de Lancastre e Távora, estava documentado que negociava com escravos embora não se dedicasse exclusivamente a esse negócio, mas viver entre o Brasil e Portugal, com certeza que o negócio de escravos era uma despesa necessária quer na compra quer na venda.
Já em Portugal, esta figura era intitulado de Arara ou o tio Lâmpada, descrito na obra de “ A Corja”, de Camilo Castelo Branco, devido ao seu aspecto excêntrico no vestir do dia-a-dia e na transposição para a realidade dos seus projectos coloridos e exagerados.
Com certeza que estes comentários foram sobejamente referenciados no quotidiano, comentários públicos e privados e pelos jornais da época, pela sua forma excêntrica e exuberante do seu dia-a-dia.
Em carta a Félix Lascasas dos Santos, Visconde de Lascasas, seu amigo, datada de 9 de março de 1857, comenta estas descrições da seguinte maneira: “Amigo. Principio por dizer alguma coisa a respeito do meu sistema de trajar; que não tem nada de novo ao meu costume daí, por isso o que aqui reparam e alguma coisa dizem, para mim não é novidade, porque já de lá vinha habituado aos tocadores de rebeca; e então pouco se me dá disso, porque embora tenha o costume de andar com vestuário de cores claras ou de qualquer feitio ou moda ao meu gosto, eu creio que com isso não ofendia pessoa alguma, nem a moral pública, nem tão pouco julgo que um tal vício (se merece tal nome) possa desmerecer o meu conceito aos olhos da sociedade em geral ou dos meus amigos em particular, a uma visita a uma repartição de etiqueta, etc.
Como acima digo, pouco me importa o que dizem a este respeito, porque com ufania o digo, se algum procedimento tenho repreensível, será esse o único, ao passo que esses miseráveis que se julgam com direito de ser a palmatória do mundo têm na sua crónica páginas mais negras que uma noite de Londres no tempo de Inverno; por isso, meu amigo, se se fosse tomar a peito todos os ditos do mundo, não teríamos uma hora de satisfação na nossa vida, por mais longa que ela se tornasse. Repito, o que dizem a esse respeito, pouco ou nada me incomoda.
Camilo Castelo Branco ironiza-o, na sua obra, de 1880, da seguinte maneira: “Cavalos relinchavam, fazendo no macadame sonoro, com as patas, uma toada com um ritmo pomposo. Chegava a caleche descoberta dum brasileiro purpurino, coruscante, de cores arreliosas, oftálmico, delirantes, duma garridice espaventosa. Era o Arara, um triunfador daqueles tempos em que a casaca azul e o colete amarelo não dispensavam uma gravata vermelha, luvas verdes e calças côr de alecrim com polainas cinzentas. O Arara, a quem outros chamam o Lâmpada, (…) muito refastelado nos coxins côr de gema de ovo com franja azul (…) ”.
O seu regresso a Portugal, estima-se em finais de 1863 e princípios de 1864, com 35 anos de idade, fê-lo voltar às suas origens, a Gondomar, adquirindo uma parcela de terreno e iniciado a construção de sua casa, na “aldeia” na Venda Nova, em Rio Tinto e próximo de Fânzeres, sua terra natal.
Fachada da Casa

Limites da Quinta

Vista actual do Google Maps

Construiu esta habitação, designada de “Chão Verde”, com uma traça típica das construções da época e com os seus interiores tipicamente “brasileiro”. O seu exterior é extremamente e exageradamente exótico pelos seus jardins, fontes e elementos decorativos utilizados e aplicações de azulejaria e carrancas nas paredes da cavalariça e nos muros contornais da quinta.
Relata em carta, datada de 10 de novembro de 1864, a seu tio João Alves Corrêa, no Brasil, onde descreve: “ (…) Não sei se meu tio já saberá que tenho casa de moradia na cidade e na aldeia. Na cidade, na Rua do Bonfim, 53 e na aldeia na freguesia de Rio Tinto, lugar de Chão verde. É nesta ultima onde vivo mais tempo, porque lá tenho gasto bastante dinheiro, mas é sem dúvida uma das residências mais bonitas dos arrabaldes do porto, pela posição e recreios de que se acha adornada. Na qual tenho muito gosto e muita fé de que ali se vive mais. Está na minha companhia minha boa mãe. A quem compete fazer as honras de Dona de casa, porque eu a tal respeito estou como estava – livre como livre nasci.
Na sua casa do Porto, o nº. 53, ficava junto ao atual Campo 24 de agosto, no início da rua do Bonfim, usufruía ainda os n.ºs 17 e 18 que tinha uma “ (…) caza servindo de cocheira (…) “.
Registo Paroquial - Óbito (8/Nov/1879)

Faleceu na sua casa de Chão Verde, no dia 8 de novembro de 1879, conforme referenciado em documento dos registos paroquiais da freguesia.
Contudo é publicamente divulgado a data de sua morte, o dia 31 de outubro de 1879, e comprovada no cemitério do Prado do Repouso, no jazigo cemiterial de seu tio e onde se encontra também enterrado, causando estranheza a diferença dos 8 dias entre as datas registadas.

Inscrição no Jazigo (31/ Out. / 1879)

Seu jazigo localiza-se na ala principal do cemitério, quem desce, pela entrada norte, à esquerda e está edificada com uma singular e original caixão sobrelevado, com uma colcha por cima, em pedra branca e porosa, com frutos e inscrições.
Vistas do Jazigo

O Comércio do Porto noticiou o seu falecimento do " abastado e conhecido capitalista, que por muitos anos havia residido no Brasil, onde exercera a profissão comercial."
Terminava a sua vida com 51 anos de idade, morrendo solteiro e sem filhos, não deixando qualquer testamento.
Seu herdeiro directo foi seu sobrinho, filho de sua irmã Maria Martins Vieira, David Carreira da Silva, que herdou a propriedade à sua morte.
À sua morte, sua filha Rita Correia de Sá foi a herdeira desta casa, tendo casado no ano de 1915 com Domingos Gonçalves de Sá Júnior, natural do Porto e que por sua vez tiveram um filho, Domingos Correia Gonçalves de Sá tendo-se popularizado nesta terra, como presidente da Junta, eleito em quatro mandatos seguidos de 1951 a 1967.
Casou com Elisa Gomes Mesquita da Cunha e tiveram 5 filhos, actualmente ainda vivos, Rita, José, Pedro, João, Miguel, cujo contributo de muita desta informação foi cedida por estes herdeiros naturais.

Textos e informações retiradas de:
https://umolharsobreriotinto.wordpress.com
http://aert3.pt/umaescolaumavida/html/quinta_chaoverde.htm
http://portojofotos.blogspot.pt
http://www.queirozportela.com/conferencia.htm
http://umafamiliadoporto.blogspot.pt


23 de janeiro de 2017

Brito e Cunha, Palacete dos Vilares de Perdizes - Porto


P. d'A. da Casa dos Vilares de Perdizes

Pedra de Armas dos Brito e Cunha (foto cedida graciosamente por Ruy F. de Brito e Cunha)

Descrição:
Classificação: Heráldica de Família
Escudo: de Fantasia
Formato: Simples ou Plena
Leitura: I - de Brito
Timbre: um Leão
Elmo: de Perfil, de grades

Esta pedra encontrava-se colocada no frontão da fachada do prédio situado no gaveto das ruas das Taipas com a Rua de S. Miguel, freguesia da Vitória.

Foto antiga (retirada da obra de Germano Silva, em "Porto nos Lugares da História"

Vista actual (sem o Brasão)

Esta casa apalaçada do séc. XVII, era conhecida pelo Palacete dos Vilares de Perdizes e terá também pertencido à família Brito e Cunha, nos inícios do séc. XIX, considerada a casa principal e onde viveram algumas gerações dos seus chefes de linhagem.
Mais acima, na rua das Taipas, situa-se uma outra casa pertença desta família, onde actualmente serve de Junta de Freguesia e contém ainda a pedra original da família.
Posteriormente, já nos finais desse século aí residiram Francisco de Moura Coutinho d'Eça e Dona Ignez de Salles de Paiva Moura Coutinho d'Almeida Eça.
Mais tarde, no séc. XX, foi aqui instalada uma escola de Cegos e posteriormente funcionaram neste edifício as escolas técnicas de Oliveira Martins, Mouzinho da Silveira e de Filipa de Vilhena.
Pedra em granito e bem conservada foi entretanto desmontada e colocada nos jardins da Quinta do Ribeirinho, em Matosinhos.
Quinta do Ribeirinho, Matosinhos